A armadilha da comparação: por que nos medimos pelos olhos dos outros?

19 de set. de 2026

 

Quando meu filho era um bebê de colo, li um texto da escritora Rafaela Carvalho que me chegou como um verdadeiro abraço em dias de exaustão. A frase era simples, mas cirúrgica: "comparação é a ladrão de felicidade". Naquela época, vivendo o turbilhão de emoções que a maternidade traz (ainda mais para as mães de primeira viagem), onde a culpa, as dúvidas e o ideal de perfeição materna parecem nos engolir... aquilo fez um sentido gigante.

Com o passar dos anos, essa frase nunca me abandonou. E o motivo é que, tanto na minha vida pessoal quanto na escuta clínica, vejo o quanto a comparação contínua adoece silenciosamente as pessoas.


O desejo de pertencimento e a armadilha do olhar:

Somos seres sociais por excelência. A psicanálise nos ensina que a nossa constituição subjetiva passa inevitavelmente pelo Outro. Precisamos nos espelhar, buscamos aceitação, queremos pertencer. Essa tendência de olhar para o lado para medir o próprio passo é, em alguma medida, parte da nossa engrenagem psíquica.

Até aí tudo bem. O problema começa quando esse olhar deixa de ser uma referência saudável e se transforma em uma régua de punição.

Quando olhamos para a vida alheia, cometemos um erro de cálculo: comparamos os nossos bastidores reais (com todas as suas falhas, crises, cansaços e dúvidas) com um recorte, uma vitrine impecável do outro. É uma competição desonesta que nós mesmos criamos contra nós mesmas.


A ilusão da grama mais verde:

Na clínica, escuto diariamente o peso desse movimento. Pessoas que se sentem insuficientes porque o outro parece mais bem-sucedido, mais feliz, com uma família mais harmoniosa, uma casa impecável digna de capa de revista, viagens, ou uma rotina super produtiva.

Costumo dizer que: a grama do vizinho é mais verde porque nós estamos olhando para ela enquanto a nossa cria mato sem que a gente veja.

Enquanto mantemos os olhos grudados na grama alheia, deixamos de regar o nosso próprio solo.


O resgate do próprio processo:

O sofrimento psíquico nem sempre nasce de quem realmente somos; ele brota muitas vezes da distância intransponível entre quem somos e esse ideal inalcançável que projetamos no outro.

O processo de psicoterapia não serve para nos tornar "perfeitas", blindadas ou imunes à angústia da comparação. Serve para nos devolver a nós mesmas. É o espaço onde você aprende a desviar o olhar da grama do vizinho, a recolher as projeções e a ter coragem de cuidar do seu próprio jardim, com todas as estações e intempéries que ele possa ter.

Afinal, a sua história não precisa ser a cópia de nenhuma outra. Ela só precisa ser a que você mesma escreve e escolhe habitar.

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