Quando meu filho era um bebê de colo, li um texto da escritora Rafaela Carvalho que me chegou como um verdadeiro abraço em dias de exaustão. A frase era simples, mas cirúrgica: "comparação é a ladrão de felicidade". Naquela época, vivendo o turbilhão de emoções que a maternidade traz (ainda mais para as mães de primeira viagem), onde a culpa, as dúvidas e o ideal de perfeição materna parecem nos engolir... aquilo fez um sentido gigante.
Com o passar dos anos, essa frase nunca me abandonou. E o motivo é que, tanto na minha vida pessoal quanto na escuta clínica, vejo o quanto a comparação contínua adoece silenciosamente as pessoas.
O desejo de pertencimento e a armadilha do olhar:
Somos seres sociais por excelência. A psicanálise nos ensina que a nossa constituição subjetiva passa inevitavelmente pelo Outro. Precisamos nos espelhar, buscamos aceitação, queremos pertencer. Essa tendência de olhar para o lado para medir o próprio passo é, em alguma medida, parte da nossa engrenagem psíquica.
Até aí tudo bem. O problema começa quando esse olhar deixa de ser uma referência saudável e se transforma em uma régua de punição.
Quando olhamos para a vida alheia, cometemos um erro de cálculo: comparamos os nossos bastidores reais (com todas as suas falhas, crises, cansaços e dúvidas) com um recorte, uma vitrine impecável do outro. É uma competição desonesta que nós mesmos criamos contra nós mesmas.
A ilusão da grama mais verde:
Na clínica, escuto diariamente o peso desse movimento. Pessoas que se sentem insuficientes porque o outro parece mais bem-sucedido, mais feliz, com uma família mais harmoniosa, uma casa impecável digna de capa de revista, viagens, ou uma rotina super produtiva.
Costumo dizer que: a grama do vizinho é mais verde porque nós estamos olhando para ela enquanto a nossa cria mato sem que a gente veja.
Enquanto mantemos os olhos grudados na grama alheia, deixamos de regar o nosso próprio solo.
O resgate do próprio processo:
O sofrimento psíquico nem sempre nasce de quem realmente somos; ele brota muitas vezes da distância intransponível entre quem somos e esse ideal inalcançável que projetamos no outro.
O processo de psicoterapia não serve para nos tornar "perfeitas", blindadas ou imunes à angústia da comparação. Serve para nos devolver a nós mesmas. É o espaço onde você aprende a desviar o olhar da grama do vizinho, a recolher as projeções e a ter coragem de cuidar do seu próprio jardim, com todas as estações e intempéries que ele possa ter.
Afinal, a sua história não precisa ser a cópia de nenhuma outra. Ela só precisa ser a que você mesma escreve e escolhe habitar.

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