A chegada dos 40 anos trouxe à tona várias perguntas. Me fez, mais uma vez, olhar para dentro: para o que vivi até aqui, para o que venho vivendo e para o que ainda quero viver.
E, no meio disso tudo, escutei da minha analista uma pergunta que ecoou por semanas: "Fora da agenda, quem tu és?"
Talvez algumas perguntas não cheguem para serem respondidas imediatamente. Algumas chegam para nos acompanhar. Para nos fazer olhar de um jeito diferente para aquilo que já estava diante dos nossos olhos.
E, na busca por essa resposta, comecei a me perceber voltando para algumas coisas minhas. Não necessariamente coisas que ficaram para trás por algum motivo específico. Algumas simplesmente foram ficando pelo caminho, enquanto a vida acontecia, enquanto outras coisas se tornavam mais urgentes, enquanto eu crescia, assumia novos papéis e a agenda ia, pouco a pouco, sendo preenchida.
Aos 40, percebi em mim um desejo de resgatar algumas dessas partes. E também de experimentar coisas novas. Depois de tantos anos aprendendo a fazer, resolver, cuidar, produzir e dar conta, percebi que havia começado a sentir falta de simplesmente estar.
E foi nessa procura, quase sem perceber, que um fio antigo voltou a aparecer.
O bordado.
Ou, talvez, seja mais justo dizer que ele reapareceu.
Os fios que vieram antes de mim
Quando era mais nova, eu bordava ponto cruz. Quem me ensinou foi uma prima que amo muito e que, hoje, é uma das mulheres que me inspira em muitas áreas da vida. E, algum tempo depois, eu também ensinei algumas meninas próximas a arte do ponto cruz.
Eu gostava de contar os pontinhos e acompanhar, nas revistas de bordado, aquele desenho que inicialmente parecia apenas um emaranhado de pequenos quadrados e cores e que, pouco a pouco, ia ganhando forma.
Havia algo muito prazeroso em ver uma imagem nascer diante dos meus olhos.
Mas a história do bordado na minha vida começou ainda antes.
Eu me lembro da minha mãe e da minha avó bordando “para fora”. Era uma forma de complementar a renda e, por isso, o bordado fazia parte do cotidiano da nossa casa enquanto eu era criança.
Eu me lembro delas bordando.
E me lembro, principalmente, de acompanhar minha avó até a casa da senhora para quem elas trabalhavam. Elas a chamavam de “a bordadeira”.
Consigo até ouvir a voz da minha avó me convidando: "Vamos na bordadeira comigo?"
A casa da bordadeira, para mim, era encantadora.
Tinha um jardim grande na frente. E, lá dentro do ateliê, havia uma parede com linhas organizadas por cores e uma mesa onde os tecidos eram desenhados para depois receberem as linhas.
Ver todas aquelas cores juntas, aqueles desenhos prontos para receber diferentes pontos e texturas, era combustível para a imaginação de uma menina de pouco mais de oito anos.
Eu ficava olhando para aquilo e imaginando quantos desenhos bonitos e coloridos poderiam nascer dali.
Provavelmente eu não soubesse, naquela época, explicar o que me encantava tanto.
Hoje penso que era a possibilidade.
Uma linha sozinha é apenas uma linha. Mas, entre as mãos de alguém, pode virar uma flor, uma folha, uma cesta, um pássaro, uma paisagem inteira.
Existe algo parecido no processo de uma mulher que decide olhar para si e assumir aquilo que é seu.
No início, muitas vezes, também há apenas um emaranhado.
Fios que se cruzam.
Histórias que se misturam.
Partes de si que parecem não fazer sentido juntas.
Mas, pouco a pouco, quando conseguimos olhar para esses fios com mais cuidado, alguns pontos começam a aparecer. Algumas coisas ganham contorno. Outras precisam ser desfeitas e refeitas.
E uma mulher pode, aos poucos, começar a reconhecer a própria imagem.
É algo que hoje também testemunho no olhar das mulheres que atendo.
Aquela parede cheia de linhas já me ensinava alguma coisa sobre possibilidades, mesmo que eu só tenha compreendido isso muitos anos depois.
Anos depois, o ponto cruz e as memórias das visitas à casa da bordadeira ficaram guardados em algum lugar da minha história.
Eu não pensava mais neles. Ou, pelo menos, não conscientemente.
Até que, recentemente, rolando o feed do Instagram, um reels me chamou a atenção:
Era um tecido, preso a um bastidor, sendo bordado à mão.
Não era ponto cruz.
E foi justamente isso que despertou minha curiosidade.
Ali estavam pontos que eu não sabia fazer, mas que tocaram em algum lugar familiar dentro de mim, mesmo sem que eu percebesse naquele primeiro instante. Linhas formando desenhos de um jeito diferente daquele que eu havia aprendido.
Fiquei olhando e pensei: "Eu quero aprender isso."
É curioso pensar que foi através de uma tela que encontrei uma atividade que eu buscava justamente para me afastar um pouco das telas.
O tempo que escapa pelas telas
Vivemos cercadas por estímulos, 24 horas por dia, 7 dias por semana.
O celular está sempre por perto. Há sempre uma mensagem, uma notificação, uma notícia, um vídeo, alguma coisa para olhar, responder ou acompanhar. E há também uma agenda pronta para receber compromissos, quase sempre com hora marcada.
Nossa atenção é constantemente disputada.
Que atire a primeira pedra quem, nos últimos tempos, não se pegou conversando com alguém sem olhar nos olhos de quem fala, mas para a tela do celular.
Ou quem, sentada à mesa para uma refeição, percebeu que estava mais atenta à mensagem do WhatsApp que “não podia esperar para ser respondida” do que à comida que estava diante de si.
Ou ainda quem sentou no sofá para assistir a uma série e, alguns minutos depois, se perdeu com o celular na mão, consumindo reels que podem ser vistos em poucos segundos.
Eu comecei a sentir vontade de fazer alguma coisa que exigisse justamente o contrário.
Alguma coisa que me pedisse presença.
Que me fizesse olhar para um único lugar.
Que ocupasse minhas mãos e, quem sabe, desacelerasse um pouco a minha cabeça.
Eu confesso: tento muitas vezes largar a tela e estar mais presente nos lugares onde estou.
Mas não vou usar da hipocrisia de dizer que não passo ainda mais horas do que gostaria (e do que precisaria) com o celular na mão.
Acredito que esse seja justamente um dos motivos pelos quais o bordado tenha me atraído tanto.
Ele não disputa a minha atenção.
Ele exige a minha atenção.
Foi assim que chegaram o bastidor, a agulha, as linhas e os primeiros pontos.
Aprender a diminuir
E que experiência interessante tem sido aprender algo novamente. Porque existe uma diferença enorme entre fazer alguma coisa que já sabemos fazer e permitir-se ser iniciante.
Os primeiros pontos não são perfeitos.
A linha às vezes fica mais apertada do que deveria. Às vezes, mais frouxa. Um ponto não fica exatamente como imaginávamos.
Ela faz nó.
É preciso desmanchar, tentar de novo, observar, repetir.
E foi justamente aí que encontrei outra coisa que eu não esperava.
Eu sou uma pessoa que acelera.
Que agiliza o tempo para dar conta da vida.
E não digo isso com orgulho... pelo contrário. Reconheço isso em mim e trabalho bastante para tirar um pouco o pé do acelerador e parar de correr o tempo todo. Mas não é um trabalho fácil para quem, de certa forma, foi criada “agilizando”.
O bordado exige que eu diminua o ritmo.
Não dá para acelerar muito.
Não dá para fazer várias coisas ao mesmo tempo.
Não dá para olhar o celular a cada poucos segundos e continuar exatamente de onde estava sem perder alguma coisa.
É preciso olhar.
Escolher.
Passar a agulha.
Puxar o fio.
Voltar.
Repetir.
Ponto a ponto.
E, pouco a pouco, alguma coisa aparece.
É justamente por isso que atividades manuais podem ocupar um lugar tão interessante quando pensamos em saúde mental.
Não porque exista uma atividade mágica capaz de resolver aquilo que nos faz sofrer.
Não é sobre transformar o bordado em uma receita de bem-estar.
É reconhecer que cuidar da saúde mental também pode significar criar espaços na vida em que não precisamos estar produzindo respostas o tempo inteiro.
Espaços de presença.
De concentração.
De descanso.
De prazer.
De contato com o corpo.
De fazer alguma coisa simplesmente porque gostamos de fazê-la.
Em uma época em que até o descanso muitas vezes precisa ser produtivo, existe algo quase subversivo em fazer uma coisa lentamente.
Sem pressa de terminar.
Sem precisar transformar aquilo em trabalho.
Sem precisar ser excelente.
Sem precisar postar.
Sem precisar justificar.
Apenas fazer.
E foi justamente aí que o bordado encontrou um lugar na minha vida.
Não como mais uma tarefa.
Mas como um pequeno intervalo.
Um lugar onde o mundo lá fora continua correndo enquanto eu fico, por alguns minutos, diante de um pedaço de tecido e algumas linhas coloridas.
Os fios que escolhemos continuar
E há algo especialmente bonito em perceber que esse retorno também me aproxima de mulheres que sempre estiveram ali, me ensinando e me inspirando.
Minha mãe.
Minha avó.
Minha prima.
As meninas a quem ensinei a bordar ponto cruz.
A professora que hoje me ensina a bordar.
E as mulheres que atendo todos os dias na clínica, que, cada uma à sua maneira, também dão novas cores às próprias vidas.
Todas essas mulheres fazem parte, de alguma forma, dos fios dessa história.
Há fios que herdamos sem perceber.
Fios que chegam até nós pelas mãos de quem veio antes.
Fios que interrompemos quando a vida exige que sigamos por outros caminhos.
Fios que retomamos muitos anos depois, às vezes sem saber exatamente por quê.
Amadurecer é também aprender a reconhecer esses fios.
Perceber quais ainda fazem sentido.
Quais precisam ser desfeitos.
Quais queremos continuar bordando.
Ninguém recebe de si mesma um desenho pronto.
Vamos construindo a imagem enquanto vivemos.
Não escolhemos todos os fios que chegam às nossas mãos. Mas, aos poucos, podemos escolher o que fazer com eles.
Podemos seguir determinado desenho por algum tempo e, depois, perceber que ele já não faz sentido.
Podemos desmanchar alguns pontos.
Recomeçar.
Acrescentar uma nova cor.
Aprender um ponto que nunca havíamos imaginado fazer.
É justamente aí que encontro uma das coisas que mais me atravessam na clínica: testemunhar mulheres descobrindo que suas histórias não precisam permanecer exatamente como foram desenhadas até aqui.
Há pontos que podem ser refeitos.
Há cores que ainda não foram experimentadas.
Há espaços em branco que não precisam ser preenchidos imediatamente.
E há desenhos que só começam a aparecer quando nos permitimos parar de seguir aquilo que esperavam de nós e começamos, finalmente, a perguntar o que queremos bordar.
Aquela menina que acompanhava a avó até a casa da bordadeira e ficava encantada diante de uma parede cheia de linhas hoje encontra a mulher que busca novas respostas para criar novos desenhos, novos pontos e novas cores.
Voltei ao bordado por motivos diferentes daqueles que levaram minha mãe e minha avó a bordar. Para elas, havia também o trabalho, a renda, a necessidade. Para mim, hoje, existe o desejo de desacelerar, de aprender, de criar, de me desconectar um pouco do excesso de telas e me reconectar comigo.
Mas há alguma coisa que atravessa essas histórias.
As mãos.
O tempo.
Os fios.
E a possibilidade de transformar alguma coisa pequena em alguma coisa que antes não existia.
Um desenho que ainda está sendo feito
Meu primeiro bordado livre ficou pronto. Ele não é perfeito. E essa é uma das coisas que eu mais gosto nele.
Porque, quando olho para aquele bastidor, não vejo apenas uma peça que aprendi a fazer.
Vejo um caminho.
Vejo uma menina que gostava de contar pontos.
Vejo minha avó e minha mãe bordando.
Vejo aquela parede cheia de linhas coloridas.
Vejo minha prima me ensinando.
Vejo as meninas para quem um dia ensinei o que eu sabia.
Vejo a professora que agora me ensina o que eu ainda não sei.
Vejo as mulheres que, todos os dias, sentam diante de mim e tentam encontrar novos pontos para suas próprias histórias.
E vejo a mulher que, aos 40 anos, decidiu aprender novamente.
Vejo, principalmente, uma lembrança que eu precisava recuperar:
eu também posso fazer coisas que não precisam ter outra finalidade além de me fazer bem.
Cuidar da saúde mental também pode ser isso.
Não apenas saber quando precisamos de ajuda, procurar tratamento, falar sobre aquilo que dói ou aprender a lidar com aquilo que nos atravessa.
Mas também construir, no cotidiano, pequenos espaços onde possamos respirar.
Encontrar atividades que nos devolvam ao presente.
Permitir que as mãos façam enquanto a cabeça descansa.
Reaprender aquilo que um dia nos deu prazer.
Ou descobrir algo completamente novo.
Cuidar de si também pode ser voltar para aquilo que existia antes de tantas cobranças, tantos papéis e tantas coisas para fazer.
Pode ser descobrir quem somos quando a agenda silencia.
Não sei por quanto tempo vou bordar. Talvez por muitos anos. Talvez outros interesses apareçam pelo caminho. Mas gosto da ideia de não precisar saber.
Por enquanto, tenho minhas linhas, minha agulha, meu bastidor e alguns pontos para aprender. E isso já é suficiente.
Porque a vida não nos entrega um desenho pronto. Vamos descobrindo, ponto a ponto, o que queremos bordar.
E, em um mundo feito de pressas, o feito à mão pede licença. Quando a gente permite que ele entre, percebe que não era apenas o mundo que precisava desacelerar. Era a gente que precisava voltar para si. Voltar para se ver para além da agenda. Para além dos papéis que desempenha. Para além de tudo aquilo que precisa fazer.
A pergunta “fora da agenda, quem tu és?” continua sem uma resposta definitiva.
E talvez essa seja justamente a beleza.
Algumas respostas não precisam ser encontradas de uma vez.
Algumas são construídas.
Ponto a ponto.
Um fio de cada vez.
"A experiência não substitui a teoria, mas impede que a teoria se torne desumana" (Christian Dunker)
Durante muitos anos estudei o luto. Li autores, acompanhei pacientes, ajudei pessoas a atravessarem perdas que pareciam impossíveis de suportar. Eu conhecia a teoria.
Então, em 02 de Agosto de 2025, segurando a minha mão, meu pai morreu.
E, naquele instante, descobri que existe um conhecimento que livro nenhum oferece.
Eu que pensava até aquele momento que aquele ano estava sendo difícil: exames e mais exames que não nos traziam um diagnóstico exato, um sentimento de impotência que me corroía por dentro vendo meu pai perdendo a força dia após dia, as semanas de hospitalização, a UTI.
E de fato foram meses difíceis. Mais eu estava enganada... ainda tinham dias muito mais difíceis depois daqueles.
Sabe aquela sensação como se o chão tivesse sumido debaixo dos seus pés? Aqueles lugares para os quais a vida nos leva e a gente não sabe nem nomear? Eu só consigo descrever como quando o corpo continua em pé, mas a alma desaba. É quando a cabeça entende, mas o coração se recusa. E você tira forças não sabe exatamente de onde para seguir.
Assim, passei o último ano aprendendo uma língua que eu nunca quis aprender.
A língua da ausência.
Descobri que a saudade não anda em linha reta. Que há dias em que ela quase cochila dentro da gente e outros em que acorda antes de nós.
Aprendi que elaborar um luto não significa deixar de amar. Nem esquecer. Nem "superar".
Significa encontrar um jeito de continuar vivendo enquanto uma parte da vida permanece para sempre do lado de quem partiu.
Descobri que o tempo que tive com meu pai deixou muito mais em mim do que eu consigo imaginar, e hoje o encontro em detalhes que antes pareciam tão comuns.
Eu já me peguei chorando enquanto fazia bife para o almoço (lembrando de quantas vezes ele me ensinou seu jeito de fazer, e eu dizia que o meu nunca ficava igual). Eu já ri muito quando passamos por momentos em que falamos nele lembrando das suas falas e histórias. Eu já sorri com os olhos marejados pensando: o pai ia ficar tão feliz vivendo isso.
Eu já me senti abraçada ao ler uma mensagem com um: "bom dia filha" escrito por um tio com o carinho que ele me escrevia. Eu já chorei de soluçar pensando que o único colo que seria capaz de me acalmar naquele momento seria o dele. Eu levei a mão ao telefone por várias vezes querendo ligar para um número que não pode me atender mais.
Eu me orgulhei de mim mesma por saber que estou conseguindo manter vivo o legado que ele me deixou. Assim como por vezes pedi desculpas e tive medo de não conseguir.
Hoje, quando escuto alguém falar da própria perda, ainda recorro aos livros. Eles continuam importantes.
Mas também recorro a esse ano.
Porque existe uma mulher, por trás da psicóloga, que agora conhece o silêncio das datas, o peso das primeiras vezes, a estranheza de continuar vivendo quando alguém tão essencial já não está.
E talvez essa mulher tenha aprendido coisas que nenhuma universidade poderia ensinar.
Hoje assino esse texto como a Mariana, como a filha do Cezar, como a psicóloga e como todas as minhas versões que habitam o corpo de quem carrega um coração cheio de saudade.
Te amo para sempre papito
Vivemos um tempo, no mínimo, contraditório.
Por um lado, o apelo pela autoperformance, pela produtividade, pela otimização do tempo. A necessidade de estar sempre presente na vida online: o feed bonito, a vida harmoniosa, compartilhar, acompanhar, não perder nada, não deixar nada de fora.
Por outro lado, os números do adoecimento vindos do sentir (ou da falta de espaço para sentir) crescem de forma acelerada. Burnout, ansiedade, depressão... lutos que precisam ser engolidos, sobrecargas que precisam ser silenciadas, dores que ganham rótulo de "frescura". Enquanto a vida acontece com o "botão do 2x" ativado, o sentir grita por socorro.
O dia segue tendo as mesmas 24 horas de duração, e a nossa sensação de tempo acelerado nada mais é do que um sintoma da vida moderna, gerada pelo excesso de informações, imediatismo e tecnologia. Fomos, sem perceber, guardando lá no fundo da gaveta o respeito pelo nosso tempo subjetivo e passamos a, simplesmente, seguir aquilo que vinha de fora, o ritmo social, esquecendo que somos também construtores desse social. Para "dar conta" da agenda, ativamos o "piloto automático", já que entrar em contato com aquilo que sentimos, com nossos desejos e nossas angústias, consome tempo, e tempo é tudo o que não podemos "perder". Assim, vamos "vivendo" (ou sobrevivendo) diante da sensação de que estamos sempre atrasadas, sempre devendo alguma coisa, e com a certeza de que o tempo está nos escapando.
Eu mesma já me vi, muitas vezes, presa nesse movimento. Na última semana, por exemplo, olhei para o meu site, um espaço que um dia me foi refúgio, e percebi que a pressa tinha invadido até o meu modo de escrever. Os textos longos foram deixados de lado, porque parecem não mais "se encaixar" no tempo em que vivemos. Afinal, a leitura precisa ser rápida e o conteúdo tem que ser consumido de forma instantânea. Eu também estava, muitas vezes, com o "2x" ativado dentro de mim, na minha rotina.
Nas redes sociais, não busco fazer conteúdo com a intenção de viralizar. Falo e escrevo sobre saúde mental, procuro fazer isso de forma leve e descomplicada, para que possa ser aplicada na vida real. Não foco no número de curtidas ou de compartilhamentos, mas fico imensamente feliz quando sei que o meu conteúdo chegou a pessoas que puderam se nutrir de alguma forma com ele. Escrevo e falo de vida real para pessoas reais e, claro, minha reflexão sobre o tempo em que eu estava vivendo foi também tentar ouvir essas pessoas. E, para minha grata surpresa (nem tão surpresa assim, pois é uma das dores e sintomas que escuto com frequência na clínica), havia mais pessoas dispostas a "encarar" os textos longos, que nos exigem mais do que 30 segundos de presença, e pessoas que sentem falta da vida sem o "2x" ativado.
Pois bem, lhes trago boas notícias! A psicanálise nos ensina que não somos reféns desse tempo cronológico. Podemos retomar as rédeas do nosso tempo subjetivo. Isso começa com a coragem de fazer uma pausa, de não responder a tudo, de ler um texto até o fim, de se permitir o silêncio sem a culpa de "estar perdendo tempo". O tempo que dedicamos a sentir não é tempo perdido; pelo contrário, é tempo de existência.
No fim das contas, estar presente é o maior desafio e a maior conquista que podemos ter. Quando você escolhe ler um texto até o fim, quando você escolhe silenciar as notificações por alguns minutos, você está dizendo a si mesma que a sua subjetividade importa. Não se apresse. O caminho de volta para si mesma é lento, mas é o único que nos leva, de fato, a algum lugar que valha a pena.
Muito tem se falado em procrastinação nos últimos anos. E normalmente quando esse tema é abordado a procrastinação vem associada à preguiça ou desorganização. Mas pode ir muito além disso!
Se buscar o significado da palavra "procrastinar" vai encontrar no dicionário: "transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair". E a pergunta que precisa ser feita antes de qualquer coisa é: por que procrastinamos?
Muitas vezes a procrastinação é reflexo de uma gestão do tempo desordenada (ou inexistente), e de áreas da vida desorganizadas. Assim como muitas vezes também costuma aparecer como hábito de pessoas que evitam se comprometer com qualquer coisa que exija responsabilidade, ou até mesmo costumam nutrir um comportamento preguiçoso. Mas precisamos ter cautela e cuidado com as generalizações e as "receitas" para "acabar" com ela, pois procrastinação é diferente de preguiça.
O que pouco se fala nas redes sociais é que procrastinação pode também ser sintoma de diversas condições emocionais, como ansiedade, depressão, e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
A procrastinação pode atuar como um auto sabotador, sendo ativada de modo inconsciente, como uma maneira do sujeito se "prejudicar" não conseguindo colocar em prática coisas que o deixariam mais próximo dos seus objetivos. E pode ainda surgir como resultado de outros fatores como, por exemplo o medo do fracasso, do perfeccionismo e até mesmo da falta de motivação.
Em todos os casos pontuados até aqui, as razões e o que desencadeia o processo de procrastinação, precisam ser investigados e tratados através de um processo terapêutico, por exemplo, para que esse ciclo seja de fato clareado e quebrado.
Por isso é tão importante entender que a procrastinação não é apenas preguiça, e sim muitas vezes um indicador de questões emocionais muito maiores. Então antes sair se cobrando para colocar em prática "receitas mágicas" para vencer a procrastinação, canalize a sua energia para olhar verdadeiramente para você e identificar o porque de a procrastinação estar fazendo morada por aí.
Por fim, mas não menos importante, não tenha vergonha ou medo de buscar ajuda profissional para lidar com a procrastinação também!
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