Dos nossos lugares

2 de mar. de 2017


Dividir a vida em compartimentos, ou gavetas que pudessem ser fechadas ou acessadas quando bem desejássemos é sonho de muitos mortais. Quase que um passo para felicidade plena (se é que isso é possível). Como não há como compartimentalizar a vida, temos que nos haver constantemente com os papeis que ocupamos, com nossas obrigações, com nossas conquistas e frustrações, sem contar com uma série de pensamentos emaranhados que nos acompanham noite e dia. Não podemos escolher as gavetas a serem abertas e fechadas a medida que queremos, mas podemos pensar assim para fazer uma analogia sobre as diferentes esferas de nossas vidas conforme os papeis que ocupamos. Somos mulheres, homens, profissionais, estudantes, pais, mães, filhos, filhas, irmãs, irmãos, amigos, amigas, vizinhos, etc.. E se assim pensarmos vamos concordar que para sermos felizes (no sentido mais popular da palavra) é necessário que todo esse conjunto funcione como engrenagens (as mais ajustadas possível).

Se iniciarmos uma discussão sobre felicidade certamente passaríamos horas colocando nossos pontos de vista e muito provável que não chegaríamos a um conceito fechado. Mas é quase que senso comum que para ser feliz é preciso harmonia. Voltando às gavetas, é preciso que todas estejam organizadas e com pesos divididos de maneira justa (usa-se aqui o critério que mais lhe convir para fazer a divisão).

Quando uma das gavetas se encontra desorganizada normalmente acaba respingando bagunça nas demais, e como não é possível isolar ela das demais a angustia acaba se fazendo presente. Muitas vezes essa angustia vem por que não mais nos cabe as coisas que ali estão guardadas, não nos cabe mais este ou aquele lugar.

Hoje, observamos isso de modo muito presente no que diz dos campos do trabalho. Uma enxurrada de artigos, relatos e notícias de pessoas que largam carreiras “estabilizadas” e vão buscar o que de fato acreditam que lhes trará momentos de felicidade mais frequentes. Há os que digam que é discurso de quem tem as “costas quentes” e quem os banque financeiramente caso não dê certo, assim como há os que veem isso como um sonho de consumo. Mas o que importa é que há de fato um número expressivo de pessoas que estão de fato fazendo isso por crer ser a melhor opção. 

Não nos cabe aqui julgar se é certo ou errado, a melhor opção ou uma utopia, até porque o que define isso é a posição do sujeito diante da vida. O que nos cabe talvez seja refletir sobre o que é mais sensato: pessoas que aguardam ansiosamente pelos finais de semana e férias para então serem felizes por algumas horas, ou aquelas que abrem mão de uma série de coisas para buscar outras e ousam mudar? Não é necessário levantar de manhã em um dia qualquer e simplesmente virar as costas para tudo (se bem que as vezes é), mas sim avaliar se o lugar que se está ocupando ainda lhe serve. As vezes somente são necessários alguns ajustes e o lugar continua sendo ocupado com alegria, em outros casos os ajustes foram feitos e não deram o resultado esperado é preciso então, ousar e alçar outros voos em busca do lugar que vá ser ocupado com o fervor e a intensidade necessários para extrair o máximo de felicidade de cada momento. Nos cabe perceber que muitas vezes as causas de nossas maiores angustias estão no fato de não mais estarmos ocupando o lugar que nos cabe. E por fim nos cabe admitir que rever as gavetas de tempo em tempo é necessário.




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