O desafio ser mulher

16 de mai. de 2017


Passado o dia das mães lhes convido a debater e refletir sobre “o desafio ser mulher”.

Todos os anos tem três datas que inundam as vitrines de flores, e as mídias e redes sociais de artigos, fotos bonitas e declarações. O dia internacional da mulher (que diga-se de passagem tem sua origem e verdadeiro significado sufocados pelos apelos comerciais), o dia das mães (data em que toda mãe vira heroína, e mais uma vez o comércio faz a festa), e o dia dos namorados (onde todos os relacionamentos são pintados como perfeitos, e o amor é medido pelo valor investido no presente e pelo número de rosas que compõe o buque). Gente não vou ser hipócrita e dizer que não gosto de um regalo aqui outro ali, de uma surpresa ou de uma declaração com palavras sinceras. Mas sabemos que isso não é tudo!

Ser mulher, não é de hoje, é um desafio. Uma batalha diária. Temos que provar a todo tempo nossas competências, e brigar por respeito. Será que isso se apaga diante de flores?

Se és mulher e escolhe investir em tua formação e tua carreira, para depois pensar se vai querer encarar um casamento, filhos, cachorro, gato, papagaio... é crucificada por que “mulher tem que ter família”.

Se és mulher, escolheu investir em tua formação e carreira, e casou... é vista como uma “bomba relógio” (expressão utilizada por Ana Paula Passareli em um texto fantástico – cujo link compartilho abaixo para quem desejar conhecer), pois pode ter um filho a qualquer momento e isso, (pasmem) aos olhos de muitos, vai te prejudicar muito como profissional, ou ainda vai terminar com tua carreira.

Se és mulher, profissional, e tem filhos (casada ou não), também utilizando uma expressão do mesmo texto de Passareli, passa a ser a “artilharia inteira”, já que deixou de correr o risco eminente e passou a ter o “problema real”.

Se és mulher e escolheu casar, construir tua família e ser do lar... é julgada, pois é um absurdo não querer trabalhar fora e ser reconhecida como uma profissional.

Se és mulher e escolhe não ter filhos... é vista como uma aberração, já que toda mulher nasce com o instinto materno. E se escolhe ter filhos, não pode falhar na criação deles, não pode te sentir insegura em momento algum, e não pode cansar... já que claro nasceu com o instinto materno e isso garante que sabe tudo o que precisa fazer.

Se és mulher e dirige... é apontada como “o perigo constante”, já que toda mulher dirige mal. Mas se és mulher e não dirige... é vista como acomodada e dependente, já que precisa de outro para tudo.

Se és mulher e bebe... é a mulher que não sabe seu papel, já que é feio mulher beber. Mas se és mulher e não bebe, é igualmente julgada, pois não é social.

Se és mulher e vaidosa... é condenada, ou porque é fútil ou porque isso enriquece o estereótipo de mulher objeto. Mas se és mulher e não é vaidosa... é condenada ou porque não ser vaidosa é sinônimo de relaxamento, ou porque “parece homem”.

E os estereótipos e discursos prontos (ultrapassados, e ridículos) não param por aí. Tem ainda os: “Isso é profissão de homem, e aquilo profissão de mulher”; “Em casa a mulher é responsável pelos afazeres domésticos e cuidado com os filhos, e o homem ajuda quando pode (ou quando quer), pois seu papel é prover sustento”; “Mulher gosta de novela e filme água com açúcar. Homem gosta de carro e futebol”.

E por aí vai...
Para o mundo por que eu quero descer!
Lamentavelmente os discursos acima não são exclusividade de poucos, muito menos exclusividade de homens. Escuto e vejo, com frequência, mulheres fazendo isso também (inclusive mulheres que se dizem feministas ferrenhas).

Sou mulher, profissional, esposa e mãe. Amo minha profissão, invisto em minha formação, e tenho planos para crescimento profissional. Tenho um marido pelo qual me apaixono todos os dias, que sabe que seu papel não é me ajudar com as coisas da casa e com os cuidados com nosso filho, sabe que seu papel é fazer tudo isso junto comigo e que isso não é favor, é simplesmente parte de seu papel, assim como o meu. Tenho um filho maravilhoso, o qual crio com todo o amor e dedicação que ele merece, e não é, de forma alguma, empecilho para nada em minha vida. Fiz escolhas, e mergulho de cabeça em cada um de meus papeis. A quem diga que sou uma mulher de sorte por isso, mas eu prefiro dizer que fui feliz em minhas escolhas.

Vamos deixar o julgamento e os dedos apontados de lado, e vamos respeitar as escolhas de cada mulher. Vamos parar de hipocrisia de lado e vamos reconhecer que mulher não é super-heroína, e que se dá conta de mil e um papéis é porque se esforça (e muito), é porque se desdobra para fazer tudo (e que muitas vezes poderia ser menos exaustivo se tivesse quem de fato “pegasse junto”, ao invés de achar que tem que ajudar de vez em quando). Vamos tirar as vendas dos olhos e vamos admitir que há sim discriminação. Vamos parar de mimimi, e vamos tomar nossos lugares e assumir nossos papéis sem achar que somos mais ou menos que aqueles que fizeram escolhas diferentes das nossas, e/ou que são de um sexo diferente do da gente.

Não vejo mulheres e homens como iguais, pelo contrário os vejo como bem diferentes, e assim como cada sujeito cheios de particularidades, mas o respeito deve ser igual. Mulheres e homens merecem e devem ser respeitados em suas diferenças, e em suas escolhas. Não há um manual de instruções, uma cartilha com certo e errado, ou com regras do tipo “isso é coisa de mulher, isso é coisa de homem”. O que há são seres humanos que merecem respeito.

Vamos colocar o respeito acima de qualquer coisa e não mais será necessário presentes para amenizar culpa, e frases bonitas para alívio de consciência. Presentes serão dados sem querer nada em troca, declarações serão sinceras (e não mais para que os outros pensem como somos bonzinhos), e o reconhecimento será diário. Simples assim!


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