Quando o mês de maio chega, as redes sociais e as vitrines costumam ser recheadas pela palavra "mãe". É presente para mãe, é o mês das mães, é homenagem para mãe, e por aí vai. Mas mãe e maternidade não são, e aqui começa nossa reflexão.
Certamente você já ouviu muitas vezes o termo “instinto materno”, bem como já deve ter ouvido outras tantas vezes o termo “empatia”. O “instinto materno” para se referir à aquele amor automático e intenso que surge na mulher assim que se vê gestante, ou ao olhar para o filho que nasce, sobre tudo aquilo que ela sabe desde sempre que precisa fazer para cuidar de um bebê, e ainda sobre o que vai obrigatoriamente desencadear o desejo de ser mãe em todas as mulheres em algum momento da vida para que assim se sintam completas e realizadas. E a “empatia” como aquela clássica do “se colocar no lugar do ouro como se fosse o outro”. Pois bem, quero aqui lhes perguntar onde foi parar a empatia quando olhamos o que estamos fazendo ao impor a manutenção do mito do instinto materno?
Sim! O instinto materno é um mito, criado para alimentar a romantização da maternidade e sustentar uma sociedade patriarcal, onde os homens precisam procriar e seguir vivendo, e mulheres precisam necessariamente ser mães e cuidar dos filhos para que os homens cuidem de suas vidas.
E aqui lhes trago algumas coisas para pensarmos
sobre a criação deste mito.
Hoje temos vários estudos científicos buscaram
investigar os mecanismos psicológicos, culturais e fisiológicos que movem uma
mulher a se dedicar de modo tão incondicional aos filhos, e cada vez mais
encontramos indicativos de que não se trata de instinto, de algo fisiológico, e
sim de uma construção psicológica e cultural.
Dentre estes estudos, Gosto de uma definição acerca do instinto materno
que a psicóloga Maria Tereza Maldonado, nos traz: “O instinto materno seria
verdadeiro se a mulher tivesse em seu equipamento biológico algo que a levasse
a amar automaticamente seu filho. E ela não tem. Algumas mulheres pensam ter,
porque começam a amar seu filho ainda na gestação, se encantam só de pensar em
tê-lo”. No entanto, o amor é construído no seu psiquismo. O mesmo mecanismo
afetivo que acontece nas adoções, por exemplo. Para ela, “o amor precisa ser
gestado”, isto é, precisa ir sendo construído e nutrido pouco a pouco.
Alimentar o mito do instinto materno é anular o
fato de que querer ser mãe diz da ordem do desejo, e não de uma necessidade fisiológica.
Certamente você já ouviu, ou até mesmo já se pegou dizendo
uma frase dessas em algum momento: “E os filhos vem quando?”; “Quando você vai
ser mãe?”; “Como assim você não quer ser mãe?”; “Por que você não quer ter
filhos?”; “E se você se arrepender depois?”; “Que egoísmo não querer ter filhos”.
É aqui que pegamos a nossa empatia e a jogamos sabe-se lá para onde!
Ignoramos a história de vida de mulheres que muito
sonham e desejam ser mães, e não conseguem. Passam muitas vezes por anos
tentando engravidar sem sucesso, e carregam feridas emocionais gigantes por
isso. Se sentem incapazes, anormais (porque se o instinto materno existe, ser
mãe é algo natural, e logo elas “não funcionam” como deveriam).
Anulamos a história de vida de mães adotivas, que movidas
pelo desejo, escolheram ser mães e amam seus filhos gestados na lista de espera
pela adoção.
Ridicularizamos a história de vida das madrastas,
que muitas vezes acolhem e cuidam de filhos que não foram por elas gerados, mas
escolhem amá-los e cuidá-los como se fossem seus. E que precisam ainda enfrentar
o preconceito gerado por outro mito criado socialmente, o de que toda madrasta
é má, e vai odiar seus enteados.
Jogamos no lixo a história de vida de famílias construída
de “recasamentos”.
Invalidamos a história de vida de mulheres que decidem
não ser mães. As colocando em um lugar marginalizado, de quem é egoísta e
mesquinha. As obrigamos à se justificar o tempo todo, explicando os motivos
pelos quais decidiram não ser mães, como se fossem ser incompletas, frustradas
e não realizadas como consequência desta escolha. Mesmo em um tempo em que está
escolha é cada vez mais frequente, elas ainda são quase que condenadas como as
bruxas queimadas nas fogueiras da inquisição.
Quando alimentamos o mito do instinto materno jogamos
a empatia fora. Sim, mesmo aqueles que se dizem mais empáticos.
Precisamos olhar para a maternidade como um tema a
ser discutido e pensado. Mãe como alguém de deseja maternar e assim o faz. E
mulher como alguém que pode ou não desejar ser mãe.
Não estamos aqui dizendo que o amor materno não existe. Estamos é fazendo um convite para pensar a maternidade e tudo o que a envolve de uma outra ótica.
Mais braços estendidos e menos dedos apontados.
Isso é o que se espera em tempos que tanto se prega empatia.
"Bati os pés
Quando você quis
Tomar a direção
Que eu não planejei
Tenho todos os seus passos contados
Como é que você quer sair assim
Se eu nunca deixei nada faltar"
(Música Origami - Mar Aberto)
Quando falamos em relacionamento abusivo, o que vem à suas cabeça?
Dor, gritos, violência física, abusos físicos?
Sim! Tudo isso pode fazer parte de um relacionamento abusivo, mas muitas vezes as coisas são muito mais sutis. E o primeiro ponto a ser lembrado aqui é: um relacionamento abusivo, é qualquer relacionamento onde uma das partes é limitada e agredida seja física, ou emocionalmente.
Muitas vezes a pessoa que vivencia um relacionamento abusivo, sem violência física demora muito mais tempo para perceber o que está acontecendo, e acaba se mantendo em sofrimento justamente pela "sutileza" de seu abusador. Eles manipulam e conseguem muitas vezes conduzir os relacionamentos fazendo com que as vítimas se sintam culpadas.
Eles usam um discurso sempre cheio de artifícios para camuflar a real intenção de seus atos. E aí nós deparamos com as justificativas do "é porque eu te amo demais", "tudo que faço é para o seu bem", "eu sempre estou do seu lado".
Por de trás dessas falas vemos atitudes de ciúme excessivo, de controle sobre escolhas, sobre as roupas, sobre o que ela pode fazer, com pode ou não conversar e até mesmo sobre os lugares onde pode ir.
Privacidade é algo que deixa de existir já no início de um relacionamento abusivo. O abusador sempre encontra formas de invadir o espaço do outro. Programas de rastreamento, exigir compartilhamento de senhas (ou mesmo roubo das mesmas), obrigação de compartilhar absolutamente todos seus passos, planos e pensamentos. O discurso é o do: "Quem ama de verdade não tem nada para esconder". Porém é uma via de mão única, já que o abusador segue tendo sua privacidade garantida. O que ele quer na verdade é mais uma vez manter o controle sobre a vítima, já que mesmo com discurso de amor e cuidado, ele não confia na pessoa.
No início da relação a pessoa é gentil, educada, e demonstra um cuidado e preocupação (aparente) com o bem-estar da parceira. Logo isso vai saindo de cena e vai dando espaço para as "críticas construtivas", a vítima vai tendo sua autoestima esmagada e se sentindo cada ve mais incapaz de fazer qualquer coisa com acertividade. Ao mesmo tempo todos os sentimentos da vítima são invalidados, tudo que sente é visto como bobagem, besteira ou exagero, e a própria vítima começa a acreditar nisso, se culpando e se impedindo de fazer movimentos para se libertar daquilo que a faz sofrer.
Aos poucos ele vai afastando sua vítima das outras pessoas, a fim de garantir que ela não tenha uma rede de apoio ou qualquer outra pessoa que possa confiar. "Tal pessoa não é uma boa influência", "Fulano não gosta de mim", "Ele sempre dá em cima de você", "Suas amigas estão te explorando"... e assim ele vai garantindo que sua vítima fique desamparada e cada vez mais dependente dele.
Algumas das armas mais comuns do abusador são a chantagem emocional e a manipulação. Ele oprime sua vítima e mesmo assim, sempre se coloca no lugar daquele que é o mais fraco e que está sofrendo. E ao mesmo tempo a vítima vai tendo seu lugar de culpada sempre reforçado.
Outro ponto muito comum neste tipo de relacionamento é o abuso financeiro. O abusador pode fazer coisas para impedir que a vítima tenha seu próprio dinheiro e assim fique ainda mais dependente dele. Ou por outro lado, pode explorar a parceira, exigindo através de chantagens ou manipulação que ela pague coisas que para ele, e até mesmo "preste contas" justificando onde usou seu próprio dinheiro. Mais uma vez fazendo uso de discursos de zelo e preocupação.
Infelizmente chega o tempo em que o abusador deixa de ser tão sutil em suas ações e então começam as ameaças, as agressões físicas e os abusos sexuais. Mas, mesmo nesta fase, ele segue usando depois dos episódios de agressão os discursos de manipulação, que simulam arrependimento, prometem mudanças (e por um tempo até disfarçam sua postura para simular a tal mudança). Suas falas de justificativa sempre conduzem situação colocando a vítima como culpada e seguem jurando ter feito tudo por amor e cuidado.
Se você identificou algum desses traços em seu relacionamento, não tenha medo de buscar ajuda. Identifique e fortaleça (ou ainda procure construir) uma rede de apoio, busque cuidados para sua saúde emocional e então resgate sua força, sua voz e sua autoestima. Não se sinta culpada por ter se envolvido ou se mantido em um relacionamento abusivo. E lembre-se de que você tem o direto de corrigir a rota e escrever uma história diferente a qualquer momento. Busque ajuda!
Caso você perceber que alguém que vem vivendo um relacionamento abusivo, procure acolher e amparar a vítima, e ajude ela a buscar ajuda. Procure não julgar! A vítima de um relacionamento abusivo precisa de socorro e não de mais dedos apontados.
É com amparo, e fortalecimento que quebramos ciclos de abuso. Não se cale, não se culpe, busque ajuda.
❤ Seja gentil, acolha e escute: lembre de que mesmo sem poder abraçar ou beijar, você pode ser gentil, ajudar as pessoas que estão próximas à você. Lembre de que todos estão enfrentando os medos e incertezas vindos do Corona.
Muito se fala em machismo, em feminismo, em empoderamento feminino. Mas será que nossos discursos tem sido coerentes com nossas atitudes?
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