Vivemos um tempo, no mínimo, contraditório.
Por um lado, o apelo pela autoperformance, pela produtividade, pela otimização do tempo. A necessidade de estar sempre presente na vida online: o feed bonito, a vida harmoniosa, compartilhar, acompanhar, não perder nada, não deixar nada de fora.
Por outro lado, os números do adoecimento vindos do sentir (ou da falta de espaço para sentir) crescem de forma acelerada. Burnout, ansiedade, depressão... lutos que precisam ser engolidos, sobrecargas que precisam ser silenciadas, dores que ganham rótulo de "frescura". Enquanto a vida acontece com o "botão do 2x" ativado, o sentir grita por socorro.
O dia segue tendo as mesmas 24 horas de duração, e a nossa sensação de tempo acelerado nada mais é do que um sintoma da vida moderna, gerada pelo excesso de informações, imediatismo e tecnologia. Fomos, sem perceber, guardando lá no fundo da gaveta o respeito pelo nosso tempo subjetivo e passamos a, simplesmente, seguir aquilo que vinha de fora, o ritmo social, esquecendo que somos também construtores desse social. Para "dar conta" da agenda, ativamos o "piloto automático", já que entrar em contato com aquilo que sentimos, com nossos desejos e nossas angústias, consome tempo, e tempo é tudo o que não podemos "perder". Assim, vamos "vivendo" (ou sobrevivendo) diante da sensação de que estamos sempre atrasadas, sempre devendo alguma coisa, e com a certeza de que o tempo está nos escapando.
Eu mesma já me vi, muitas vezes, presa nesse movimento. Na última semana, por exemplo, olhei para o meu site, um espaço que um dia me foi refúgio, e percebi que a pressa tinha invadido até o meu modo de escrever. Os textos longos foram deixados de lado, porque parecem não mais "se encaixar" no tempo em que vivemos. Afinal, a leitura precisa ser rápida e o conteúdo tem que ser consumido de forma instantânea. Eu também estava, muitas vezes, com o "2x" ativado dentro de mim, na minha rotina.
Nas redes sociais, não busco fazer conteúdo com a intenção de viralizar. Falo e escrevo sobre saúde mental, procuro fazer isso de forma leve e descomplicada, para que possa ser aplicada na vida real. Não foco no número de curtidas ou de compartilhamentos, mas fico imensamente feliz quando sei que o meu conteúdo chegou a pessoas que puderam se nutrir de alguma forma com ele. Escrevo e falo de vida real para pessoas reais e, claro, minha reflexão sobre o tempo em que eu estava vivendo foi também tentar ouvir essas pessoas. E, para minha grata surpresa (nem tão surpresa assim, pois é uma das dores e sintomas que escuto com frequência na clínica), havia mais pessoas dispostas a "encarar" os textos longos, que nos exigem mais do que 30 segundos de presença, e pessoas que sentem falta da vida sem o "2x" ativado.
Pois bem, lhes trago boas notícias! A psicanálise nos ensina que não somos reféns desse tempo cronológico. Podemos retomar as rédeas do nosso tempo subjetivo. Isso começa com a coragem de fazer uma pausa, de não responder a tudo, de ler um texto até o fim, de se permitir o silêncio sem a culpa de "estar perdendo tempo". O tempo que dedicamos a sentir não é tempo perdido; pelo contrário, é tempo de existência.
No fim das contas, estar presente é o maior desafio e a maior conquista que podemos ter. Quando você escolhe ler um texto até o fim, quando você escolhe silenciar as notificações por alguns minutos, você está dizendo a si mesma que a sua subjetividade importa. Não se apresse. O caminho de volta para si mesma é lento, mas é o único que nos leva, de fato, a algum lugar que valha a pena.

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