Há conhecimentos que cabem nos livros. Outros só encontram lugar dentro da gente

2 de ago. de 2026

"A experiência não substitui a teoria, mas impede que a teoria se torne desumana" (Christian Dunker)


​Durante muitos anos estudei o luto. Li autores, acompanhei pacientes, ajudei pessoas a atravessarem perdas que pareciam impossíveis de suportar. Eu conhecia a teoria.
Então, em 02 de Agosto de 2025, segurando a minha mão, meu pai morreu.
E, naquele instante, descobri que existe um conhecimento que livro nenhum oferece.

Eu que pensava até aquele momento que aquele ano estava sendo difícil: exames e mais exames que não nos traziam um diagnóstico exato, um sentimento de impotência que me corroía por dentro vendo meu pai perdendo a força dia após dia, as semanas de hospitalização, a UTI.
​E de fato foram meses difíceis. Mais eu estava enganada... ainda tinham dias muito mais difíceis depois daqueles.

​Sabe aquela sensação como se o chão tivesse sumido debaixo dos seus pés? Aqueles lugares para os quais a vida nos leva e a gente não sabe nem nomear? Eu só consigo descrever como quando o corpo continua em pé, mas a alma desaba. É quando a cabeça entende, mas o coração se recusa. E você tira forças não sabe exatamente de onde para seguir.


Assim, passei o último ano aprendendo uma língua que eu nunca quis aprender.
A língua da ausência.

Descobri que a saudade não anda em linha reta. Que há dias em que ela quase cochila dentro da gente e outros em que acorda antes de nós.
Aprendi que elaborar um luto não significa deixar de amar. Nem esquecer. Nem "superar".
Significa encontrar um jeito de continuar vivendo enquanto uma parte da vida permanece para sempre do lado de quem partiu.
​Descobri que o tempo que tive com meu pai deixou muito mais em mim do que eu consigo imaginar, e hoje o encontro em detalhes que antes pareciam tão comuns.

Eu já me peguei chorando enquanto fazia bife para o almoço (lembrando de quantas vezes ele me ensinou seu jeito de fazer, e eu dizia que o meu nunca ficava igual). Eu já ri muito quando passamos por momentos em que falamos nele lembrando das suas falas e histórias. Eu já sorri com os olhos marejados pensando: o pai ia ficar tão feliz vivendo isso.

Eu já me senti abraçada ao ler uma mensagem com um: "bom dia filha" escrito por um tio com o carinho que ele me escrevia. Eu já chorei de soluçar pensando que o único colo que seria capaz de me acalmar naquele momento seria o dele. Eu levei a mão ao telefone por várias vezes querendo ligar para um número que não pode me atender mais.

Eu me orgulhei de mim mesma por saber que estou conseguindo manter vivo o legado que ele me deixou. Assim como por vezes pedi desculpas e tive medo de não conseguir.

Hoje, quando escuto alguém falar da própria perda, ainda recorro aos livros. Eles continuam importantes.
Mas também recorro a esse ano.
​Porque existe uma mulher, por trás da psicóloga, que agora conhece o silêncio das datas, o peso das primeiras vezes, a estranheza de continuar vivendo quando alguém tão essencial já não está.
​E talvez essa mulher tenha aprendido coisas que nenhuma universidade poderia ensinar.

Hoje assino esse texto como a Mariana, como a filha do Cezar, como a psicóloga e como todas as minhas versões que habitam o corpo de quem carrega um coração cheio de saudade.

​Te amo para sempre papito

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